A verdadeira (e a falsa) rebeldia jovem

Quando eu era jovem, e não foi há tanto tempo assim, apenas algumas décadas, eu pensava, como os jovens sempre pensam, que ser jovem é ser assim como todos os jovens acham que ser jovem é… Na minha época de jovem, ser jovem era ser rebelde, independente, infringir regras, mudar esse mundo careta dos meus pais e avós, curtir as músicas que tocavam nas rádios e nos programas jovens nas televisões, e era assim que tinha de ser, era assim que eu queria ser e todos os jovens também queriam. Mais tarde, já ficando homem, fui conhecendo jovens e eles pensavam como eu pensava quando era jovem, que ser jovem é ser rebelde, independente, infringir regras, mudar esse mundo careta dos seus pais e avós, curtir as músicas que tocam nas rádios jovens e nas televisões, e é assim que tem de ser. Estão achando repetitivo o que eu estou escrevendo? Pois bem, é de propósito, continuemos. Quando fiquei coroa, quarentão, cinqüentão e agora sessentão, indo para o terço final dessa atual passagem pela Terra, fui conhecendo os novos jovens e eles querem ser rebeldes, independentes, infringir regras, mudar esse mundo careta. Os jovens que estão me lendo devem estar pensando, mas ser jovem é isso, ser rebelde, independente, infringir regras, mudar o mundo, isso é ser jovem! O meu lado (ainda) jovem concorda, mas vamos ver ponto a ponto:

1.    Ser rebelde

Concordo inteiramente em ser rebelde, mas contra o quê e como? Existem duas maneiras de ser rebelde: rebelar-se contra a sociedade, contra seu pai, contra sua mãe, contra a sua família, contra uma parcela de políticos, contra a corrupção, contra as injustiças sociais, contra a fome, a miséria, a violência de uma negativamente, ou rebelar-se contra isso tudo de maneira positiva. Como são ambas essas maneiras? A maneira que deveria ser preferencialmente escolhida pelos jovens, se eles não fossem lavados diariamente, mentalmente, pela imagem criada de “Ser jovem é…”, seria a rebeldia positiva, ou seja buscar ser diferente, procurar ser melhor, procurar dar um exemplo, ou seja, se os adultos caretas fumam, não fumar, se os adultos caretas bebem, não beber, se os adultos caretas são acomodados, não ser acomodado, se alguns políticos são corruptos, se roubam, se enganam, não ser corrupto, não roubar, não enganar, se a injustiça social, a fome, a miséria, a violência no Brasil e no mundo lhe incomoda, entrar em ONGs, Associações, Entidades, que lutam contra isso, para que um dia ninguém mais passe fome, para que ninguém mais viva na miséria, para que acabe a violência, e essa é, então, a rebeldia positiva.

Uma certa parcela dos jovens rebela-se de maneira negativa, rebelam-se contra o errado agindo errado, fumando, bebendo, drogando-se, indo mal no Colégio, mal na Faculdade, vivendo na noite, ou trancando-se dentro de si, deprimindo-se, enraivecendo-se, enfim, uma maneira de rebelar-se que não vai dar em nada, apenas vai levar à sua própria destruição, numa canalização mal dirigida de sua força jovem, de sua indignação, que deveria ser positiva mas é negativa. Para aqueles eu dou meus parabéns, pois eles mudarão o mundo, para esses, eu dou um conselho: sejam diferentes do que não aprovam, não sejam iguais, pois estão mantendo o mundo exatamente como ele é ou até piorando-o.

2.    Ser independente

Existem duas maneiras de querer ser independente: uma achando que é independente mas, na verdade, ser prisioneiro da mensagem midiática, que lhe convenceu de que ser jovem independente é fumar, beber, “aproveitar a vida”, ser maluco, meio doidão, que é o estilo americano e europeu de ser jovem…  A outra maneira é ser independente mesmo, não seguindo o que as mensagens comerciais incentivam, interessadas em transformar os jovens em meros consumidores, em fonte de renda, e ser então livre dessas mensagens e ser um jovem realmente independente, que não obedece ao que dizem, o que os jovens devem fazer, como devem ser, que vocês devem fumar, que devem beber, que devem ”aproveitar” as noites, os finais de semana, as férias. Ser independente é mandar em si, mas para isso o jovem deve desenvolver um discernimento, uma visão crítica em relação ao que lhe entra pelos olhos e pelos ouvidos, se é uma mensagem positiva ou negativa, se visa lhe incentivar a usar a sua força jovem, a sua indignação, positivamente, para melhorar o mundo, ou para “aproveitar a vida”, que lhe dizem que é uma só, lhes dizem que a juventude passa rápido, que tem de fazer tudo o que pode, antes de – que horror! – virar adulto e, pior ainda, ficar velho!
No Oriente é um orgulho ficar velho, aqui no Ocidente, ficar velho é um até uma espécie de vergonha.

3.    Infringir regras

Quais as regras que devem ser infringidas? Uma das regras que os jovens devem infringir é a regra criada, por alguns segmentos da indústria e do comércio, de que “Ser jovem é ser doidão”, essa deve ser definitivamente infringida! Alguns programas de rádios jovens e alguns programas e filmes na televisão e sites na Internet incentivam essa concepção, ela deve ser infringida totalmente! Jovens do Brasil: infrinjam essa regra! Mas uma regra que nunca deve ser infringida é a regra moral que diz que os jovens devem esforçar-se para utilizar a sua energia e força jovem para melhorar o mundo, para acabar com o hábito de fumar, de beber, de usar outras drogas, e saber utilizar o seu tempo para colaborar em Organizações sociais, espirituais, humanitárias, para ajudar a melhorar o mundo. Essa regra deve ser imediatamente adotada! Ao invés de ir para a pracinha fumar um baseado, ao invés de ir ao bar tomar cerveja e jogar conversa fora, ao invés de ficar horas e horas em frente à televisão assistindo programas que ativam os nosso chakras inferiores ou no computador “conversando” ou jogando ou passando o tempo, rebelar-se contra isso e procurar uma Instituição onde possa unir-se à pessoas que trabalham para ajudar os pobres, irmãos abandonados, carentes, doentes. Essa é uma ótima rebeldia!  Uma regra que não deve ser infringida é a que diz que os jovens devem estudar, ser ótimos alunos, para tornarem-se ótimos profissionais e trabalhar em empresas, em órgãos governamentais, que caracterizem-se por ter uma atividade que ajude a acabar com a injustiça social, com a fome, com a miséria, com a violência no Brasil e no mundo.

4.    Mudar o mundo para melhor

Essa deve ser a principal atividade e meta dos jovens! Para isso, os jovens devem perceber o que piora o mundo, o que o mantém como está e o que pode melhorá-lo para ele tornar-se, um dia, como todos queremos, nós, os utópicos. Por exemplo, um jovem é idealista e quer melhorar o mundo, e vai trabalhar numa fábrica de cigarros ou de bebida alcoólica, ou numa distribuidora dessas drogas, ou em algum local onde a venda é incentivada. Onde ficou o seu ideal? O que mais provavelmente acontecerá é que irá matar seu sonho e irá tornar-se um adulto cínico e hipócrita, que matou seu ideal juvenil, que sabe que está fazendo o que não é bom para o mundo, que trabalha em um local que não tem a preocupação social de ser útil para as pessoas, que visa apenas vender e ganhar dinheiro. Aos adultos que já foram jovens e se perderam de seu ideal e aos jovens que são bombardeados diariamente pelas mensagens “jovens” de “Como um jovem deve ser…” eu sugiro cuidado, atenção, discernimento. Vejam o que estão fazendo com aquela vontade de melhorar o mundo, de mudar o mundo para melhor, de termos uma sociedade mais justa, mais humana, mais digna. Estão fazendo isso ou apenas isso jaz adormecido, ou morto, dentro de si? Ser rebelde é usar o poder da indignação positiva e ajudar a mudar as coisas, a melhorar o mundo. Fazer a mesma coisa de quem está fazendo coisas erradas, fumar, beber, usar drogas, viver na noite, ou trabalhar em qualquer emprego, apenas para ganhar uma grana, não aproveitar o seu potencial revolucionário, modificador do mundo, não é ser rebelde, é ser conivente.

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Uma resposta em “A verdadeira (e a falsa) rebeldia jovem

  1. muito bom. serviu-me de inspiração, pois as vezes falo no centro espirita de s.s. do cai-rs. penso num título assim: a verdadeira rebeldia dos jovens.

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