Cannabis sativa (maconha)

A Cannabis sativa é uma planta herbácea da família das Canabiáceas e o seu principal composto químico psicoativo é o delta-9-tetrahidrocanabinol, comumente conhecido como THC. Possui também outros canabinóides, como o Cannabidiol e o Cannabinol, todos eles responsáveis pelos seus efeitos em nível do Sistema Nervoso Central. Entre esses efeitos, que atraem muitas pessoas, estão o relaxamento muscular, uma sensação de calma, uma certa sonolência, uma melhora do humor, um aumento do otimismo, um estímulo da criatividade e uma maior ou menor euforia.

Esses efeitos, no início do uso dessa planta, provocam uma sensação agradável, que cativa muitas pessoas, pois acalma, relaxa, interioriza, os problemas desaparecem, nada é mais tão sério ou grave, tudo tem solução e o uso dessa planta torna-se a solução para o stress diário, para a tristeza, para a irritação, para as coisas chatas da vida que têm de ser feitas, para voltar para si ao final do dia, para se acalmar durante o dia. O seu uso gradativamente começa a intensificar-se porque seu efeito é tão bom que não se vê motivo para não usá-la, afinal de contas, fica-se mais calmo, mais pacífico, mais alegre. Por que não usar, então?

A utilização da Cannabis começa a se intensificar, a tornar-se um ato rotineiro, um hábito diário e, aos poucos, essas sensações agradáveis começam a se transformar: o relaxamento vai virando preguiça, a calma vai se transformando em lassidão, a melhora do humor e do otimismo começa a virar postergação, a necessidade de fazer coisas chatas (coisas que não se gosta de fazer mas tem de fazer) começa-se a deixar para mais tarde (“Depois eu faço…”, “Amanhã eu faço…”), o aumento das idéias criativas vão se transformando em uma criatividade apenas teórica (“Tudo bem…”).

Quando seu uso começa na pré-adolescência ou na adolescência, com o tempo, a entrada no mundo adulto, que nada mais é do que tornar-se uma pessoa séria, responsável, dinâmica, trabalhadora, engajada no mundo, vitoriosa, começa a demorar para acontecer…

O jovem vai permanecendo jovem e não amadurece. Os anos vão passando e o jovem vai ficando sempre jovem, só que já não é mais tão jovem. A sua auto-imagem é de um jovem, e aí começa o pior: vai ficando ridículo. Veste-se como um jovem adolescente e já é um adulto, mas não se vê como adulto, sente-se ainda um jovem, mas não é mais… Os seus antigos amigos, “caretas”, tornaram-se adultos e ele, não. Quem estudou, esforçou-se, acabou a Faculdade está trabalhando, ganhando dinheiro, fazendo coisas, e ele? Ainda morando e dependendo financeiramente dos pais, que passam a ser, então, os culpados por sua situação. Ou se não são os pais, é a sociedade, o mundo, os políticos…

O que aconteceu é que as suas metas e idéias foram se transformando em apenas uma viagem mental, sem uma concretização prática das mesmas, pois o uso cotidiano dessa planta relaxa, acalma, interioriza, faz a pessoa sentir-se bem… E pode ir ocorrendo uma tendência ao isolamento, à solidão, ou a um excesso de sociabilização, um excesso de intimidade, sem critérios, com uma perda da autocrítica. O usuário não percebe mais a ruína evolutiva do seu aspecto físico, vai perdendo o cuidado com a roupa, com o cabelo, com a sua postura e atitudes, a ponto de todas as pessoas verem que ali está uma pessoa viciada em maconha, menos ela própria.

Ela vai a lugares com o odor característico da planta sem perceber isso, acha que colocar desodorante ou perfume vai disfarçar o cheiro, mas não disfarça, ou dá uma escapadinha, some, e depois volta com o sorriso infantilóide característico, falando bobagens ou escondendo-se pelo cantos.

A sua postura, a sua fala, a sua conduta começam a revelar que ela está substituindo a sua saúde, a sua maturidade, a sua energia positiva, por uma atividade egocêntrica, infantil, teórica, de quem não consegue amadurecer, tornar-se adulto, numa viagem mental por mundos pseudo-espirituais que não irão beneficiar nem a ela nem às pessoas com quem convive, e nem pessoas que necessitariam de sua atenção e cuidado, como os doentes, os pobres, os deficientes, num exercício de caridade, de cuidado, de carinho, que seu coração pede, mas que exigiria uma atitude ativa, madura, pró-ativa, e não passiva, adolescente, introvertida, como o uso dessa planta cria.

A felicidade que a pessoa sente ao início do uso, vai tornando-se uma alegria infantilóide porque o uso cotidiano dessa planta vai impedindo a pessoa de amadurecer. Um jovem de 18 anos comporta-se como um de 14, ou menos, um adulto de 20 e poucos anos parece um adolescente. Na linguagem, na maneira de vestir-se, na postura, e isso começa a se refletir nos estudos, no trabalho, e o uso de uma substância proibida por lei pode ir criando sintomas paranóicos e esquizofrênicos, como uma ilusão de perseguição, o surgimento de visões, o afloramento de idéias espirituais estranhas, principalmente se o usuário começa a ser (mal) acompanhado por espíritos desencarnados, ex-usuários, que passam a influenciá-lo em seus pensamentos, em seus hábitos, até dominarem completamente a sua mente e a sua vontade.

Muitas pessoas usuárias dessa planta afirmam que o seu uso, pela expansão da consciência que ela provoca, traz consigo uma abertura espiritual, uma nova visão a respeito da realidade, uma libertação da informação materialista da nossa sociedade egóica e capitalista, como se fosse um reencontro consigo mesmo, com a nossa identidade espiritual e, por isso, ela é considerada como uma “planta sagrada” e o seu uso é defendido como se fosse um direito espiritual, até baseando-se na liberdade de culto e opção religiosa.

Uma das alegações dos seus usuários é que essa planta é “pacífica” em sua mensagem, que ninguém sob seu efeito torna-se violento, nem agressivo, que a pessoa fica mais espiritual, mais calma, mais tranqüila, mais amorosa. E a comparação com a bebida alcoólica, que é legalizada e até incentivada e o seu efeito desrepressor, liberalizador de características escondidas, que muitas vezes degeneram em agressividade, em posturas auto e heterodestrutivas  é um dos argumentos dos usuários da Cannabis. E não se pode tirar deles totalmente a razão desse raciocínio. Alguns usuários chegam a argumentar que se todas as pessoas usassem a Cannabis, terminaria a violência na Terra. Pode ser…

Então, fico pensando, quem sabe o uso sacramental da Cannabis poderia realmente ajudar a erradicarmos a nossa violência, a domesticar o ser humano, a amansar o nosso Ego, a nos espiritualizar? Talvez sim mas, infelizmente para essa potencial capacidade pacificante – pelo uso inadequado dela, pela utilização cotidiana, a qualquer momento, de qualquer maneira, sem nenhum respeito – exigiria-se, então, que a “sacralidade” dessa planta sem respeito por suas características de “planta sagrada” ocasiona o que se vê nas ruas, nos colégios, nas universidades, nos consultórios, que essa abertura espiritual, referida por muitos usuários nos primeiros tempos da utilização dessa planta, freqüentemente degenera numa experiência meramente teórica, numa espiritualidade egocêntrica e egoísta, numa busca de viagens internas de descobertas fantásticas, num exercício infantil de busca de prazer e curtição, de ampliação da capacidade de sentir os sons e as cores, visando apenas viajar, viajar e viajar. A “espiritualização” virou uma teoria, idéias espirituais, desejo de interiorizar-se mais e mais, ser calmo, pacífico, e isso me lembra uma história budista:

“Uma vez, um aprendiz se ofereceu como discípulo de um monge num templo nas montanhas. O monge perguntou o que ele sabia fazer. O aprendiz se sentou e entrou em estado meditativo. Passava o tempo e o candidato a aprendiz, ali, sentado, meditando, interiorizado… Os dias passando e ele ali, sorrindo, feliz, meditando… O monge num certo momento, resolveu interromper aquele exercício egoísta e perguntou se ele queria ajudar no templo, tinha de varrer o chão, limpar a cozinha, o banheiro… O candidato respondeu que queria iluminar-se, preferia ficar ali, meditando… O monge pegou a vassoura que estava lhe oferecendo para trabalhar e o expulsou a vassouradas dizendo que já tinha suficientes budas de pedra para enfeitar o templo…”

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