A garotinha da macela

Todo mundo que tem carro conhece

Aquelas coisinhas miúdas

Que nos infernizam os dias

Nas sinaleiras fechadas,

A gente já meio neurótico,

Com as orelhas

E o humor em frangalhos.

Pois hoje à tarde uma delas,

Uma garotinha loirinha,

Oferecia macela em raminhos

Para o motorista à frente

E eu cuidava curioso

Pelo resultado previsto,

Enquanto o motorista, indeciso,

Procurava recusar-lhe sorrindo,

Inventando uma desculpa qualquer.

Mas algum trocado lhe desse,

Que a macela era apenas um pretexto,

Abrisse a carteira e tirasse

Um ou dois do dinheiro

Que hoje se chama real

E ela teria a impressão, passageira,

De ter cumprido um dever.

Mas ele recusou

E ela veio em minha direção

E preocupado com meu destino,

Que realmente não seria agradável,

Repeti a velha desculpa:

“Não, obrigado, eu já tenho.”

E ela, insistindo, pedia

Que levasse um raminho comigo,

Que era bom pro estômago,

E pro fígado,

E nem sabia que não gosto

De nada pesado ou fritura,

E continuei recusando

Até que ela então desabafando me disse:

“Ah, também, todo mundo tem macela!”

E com aquilo desmontou-me por inteiro, aos pedaços,

E abrindo a carteira ligeiro,

Que o sinal já ameaçava amarelo,

Tirei um pequeno dinheiro

E dei-lhe sorrindo

Dando-me então por satisfeito.

Sem macela.

E como última tentativa,

Ela correu ligeirinho

E ofereceu o raminho

Ao motorista traseiro,

Que para não fugir da rotina,

Falou-lhe decerto

Que já tinha macela suficiente em casa

Para baldes e baldes de chá

Para todos os gases e cólicas,

Tanto presentes como futuras.

E isso tudo eu via

Pelo espelhinho retrovisor lateral,

E como última visão,

Antes de dirigir-me ao destino,

Vi a garotinha da macela,

Loirinha, a coisa mais linda,

Retornando à segurança da calçada,

Chorando e fazendo beicinho,

E que dos seus olhos corriam

As lágrimas iniciais de uma vida

Destinada sem dúvida

A tantas e tantas mais.

E, sinaleira aberta,

As buzinas dos apressados clamando,

Não pude fazer

O que me dava vontade,

Que era descer do maldito carro,

Comprar-lhe todos os raminhos

E dar um beijo fraterno

Naquele rostinho tão lindo,

De uma garotinha loirinha

Que poderia estar num Colégio,

Ou quem sabe numa piscina

Ou numa aula de Inglês,

Mas que, ao contrário,

Passava o dia inteiro

Numa sinaleira fechada

Oferecendo o que ninguém queria,

Porque todo mundo já tinha, Ah, também!

E só o que tenho em consolo

É que me arrependo bem fundo

De ter-lhe recusado conforto,

Comprado a macela

E sorrido,

Que não custa nada

A gente fazer essas coisas.

Então por que

Não desci do meu carro

E fiz o que agora me culpo?

Garotinha da macela,

Desculpe a gente.

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2 respostas em “A garotinha da macela

  1. como fico feliz comigo mesma…poderei um dia escrever um conto..,mas nao como este da garotinha e seu raminho de macela…Comprei todos os raminhos de macela em minha vida.(ha vidas que precisam de 50 anos a este orbe para acordarem…eu.;ja nasci Acordada!

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